|
Por
Rhamza Alli
“A
dança do ventre é uma expressão poética do corpo cheia
de gestos e significados. É uma celebração a
feminilidade, desenvolvida por mulheres e para mulheres.”
(Rhamza Alli)
O
que se conhece por dança do ventre hoje em dia, no mundo
ocidental, é a dança árabe (Oriente Médio e Norte da
África) miscigenada com e influenciada por várias outras
culturas, compilada em seus movimentos mais populares,
adicionada de um breve ocidentalismo (véus, meia-ponta),
muito bem vestida com lantejoulas e franjas e transformada
em espetáculo.
A
história da dança do ventre é tão antiga quanto a
história do homem, ou melhor, da mulher. É a primeira
dança feminina de que se tem registro. Enquanto as outras
danças eram executadas pelos homens e claramente ligadas
à sobrevivência (chuva, caça, etc), desenhos em
cavernas de mulheres dançando, mostram-nas com ventre em
evidência. Os movimentos de contração, ondulação e
vibração foram desenvolvidos pelas mulheres e para as
mulheres em função de aliviar dores menstruais e
preparar os músculos para a sustentação da gestação e
o trabalho de parto, também como um culto à Grande Deusa
(natureza) em prol da fertilidade - do ventre e da terra.
Do
norte da Índia, originam-se os ciganos que, como
nômades, espalharam-se pelo mundo levando consigo sua
cultura e modo de vida. Avançaram cada vez mais em
direção ao ocidente, passando pela Pérsia,
Mesopotâmia, Turquia, Norte da África, chegando ao sul
da Europa. Usavam seus dotes artísticos como forma de
sobrevivência, cantando e dançando em feiras; sua
cultura e estilo iam se misturando e aos costumes locais e
novas manifestações, resultado dessas miscigenações,
foram surgindo.
A
dança que chegou ao conhecimento ocidental foi através
do contato com povos como os Gawazee - ciganos
provenientes do norte da Índia - que se instalaram no
Cairo e os Ouled Nail que habitam a Argélia.
Os
Gawazee mantiveram-se a parte da sociedade e preservaram
suas tradições e história de forma oral através de uma
língua própria e única. Sua dança, viva até hoje, é
caracterizada por contínua vibração dos quadris.
Os
Ouled Nail se mantiveram confinados em suas tribos. As
mulheres saiam delas apenas para dançarem nos centros
urbanos. Em sua vestimenta carregavam o dinheiro obtido
com a dança: enormes coroas e cintos com moedas, jóias,
pedrarias, correntes e pingentes. Muitos símbolos
identificados como vindos de Fenícia, Cartago e
Babilônia. Sua dança inclui rolamentos dos músculos
abdominais que começam lentos e pouco a pouco vão se
acelerando e acrescentando movimentos de pés, quadris,
braços e ombros.
Quando
os ocidentais chegaram ao Cairo (final do séc. IXX) em
busca de safáris e tesouros ficaram extasiados com o
exotismo da dança e suas dançarinas. Elas, por sua vez,
trataram de adaptar a dança e as vestimentas ao gosto
ocidental e trocaram a rua pelos clubes noturnos e
cassinos. Algumas dançarinas foram levadas à Europa e
Estados Unidos aonde puderam refinar sua dança e sua
vestimenta. Em contato com o balé clássico e
contemporâneo, incorporaram braços delicados, pés na
meia-ponta ou em saltos, véus esvoaçantes e roupas de
duas peças cheia de brilhos e franjas. Transformada assim
em espetáculo, a dança do ventre pode ganhar os grandes
teatros, casas de show e telas do cinema.
Apesar
das antipatias ao termo "dança do ventre" - que
muitos julgam pejorativo, eu, particularmente, não o
considero impróprio, pois ao meu ver, a dança é sim do
ventre em todos os sentidos: fisicamente, já que se
baseia na movimentação rotatória, ondulatória,
vibratória e de impacto do tronco e dos quadris o que
movimenta intensamente todo o abdômen, além dos
próprios movimentos de abdômen; e histórica e
simbolicamente já que a dança é a representação da
fertilidade e do nascimento.
Mas,
afinal de contas, o que é a dança do ventre? O único e
verdadeiro significado desta dança, é o poder de
criação incutido nela, a fertilidade, a gestação, a
maternidade. Ela é dançada pelas mulheres árabes
durante o trabalho de parto - tanto pela parturiente que
repete os movimentos de contração e vibração de
abdômen, como pelas outras mulheres que, junto com a
parteira, assistem o parto formando um círculo em volta
da futura mamãe, dançando e cantando uma ladainha para
purificar o ambiente e estreitar o contato com o divino.
Este ritual é executado tanto nos países do Oriente
Médio como nos africanos até os dias de hoje.
Uma
dança mais festiva e alegre é dançada quando uma menina
menstrua, quando se sabe da gravidez de uma mulher, no
batizado das crianças, enfim, tudo que for ligado à
criação de uma nova vida.
Ocasiões
festivas como casamentos, colheitas, aniversários, festas
religiosas, bênçãos, curas, afazeres do dia-a-dia,
enfim, tudo que faz parte da vida é comemorado com
música e dança por esse povo, cada região, cada tribo,
com suas tradições e particularidades, mas sempre
honorando à vida.
Como
é a Dança do Ventre
A
Dança do Ventre consiste em alguns movimentos de
vibrações, impacto, ondulações e rotações que
envolvem todo o corpo.
O
shimmy (vibração) de quadris é o movimento mais
conhecido, mas, na realidade, o fundamento da dança do
ventre é o controle abdominal e o isolamento das partes
do corpo. Uma vez que se atinge estes dois princípios
básicos, os movimentos acima citados estendem-se às
outras partes do corpo: quadris, torso, ombros, braços,
cabeça e pescoço isolados ou em diversas combinações.
Uma
dança do ventre tradicional inclui movimentos
lateralizados e retos de pescoço, quadris e torso,
ondulações de braços e mãos, tremidas suaves e
rápidas de ombros, seios e quadris, movimentos circulares
do torso com caídas e acentuações emendadas com
ondulações de peito e abdômen. Movimentos vibratórios
de extensão e contração dos músculos abdominais
isolados ou combinados com os pélvicos. As figuras
"círculo" (início da vida) e "oito"
(infinidade da vida) são amplamente usadas em diversas
dimensões, também isoladas ou em combinações.
Não
raro a bailarina sustenta o shimmy de quadris e trabalha
as outras partes do corpo em uma dinâmica diferente, ou
apresenta uma vibração generalizada e bem controlada de
todo o corpo enquanto cabeça, mãos e quadris acompanham
a dramaticidade e acentuações da música.
Além
de todos os movimentos básicos, a dança deve aflorar e
ser acrescida de giros, cambrées, espirais, trabalho de
chão. Apesar do nome dança do ventre, podemos chamá-la
de Dança do Corpo, pois movimenta todo o corpo por dentro
e por fora. As pernas e pés, são usados, entretanto
apenas para a sustentação e o deslocamento da bailarina,
sem ênfase em seus movimentos como se a bailarina fosse
uma serpente.
Beneficios
Físicos:
-
Preparação para ao parto;
- Recuperação do tônus muscular pós -parto;
- Combate a problemas relacionados ao abdômen como: TPM,
cólicas, constipação intestinal e dores renais;
- Alongamento geral do corpo sem riscos de lesões,
distensões ou contraturas (obviamente, através de
exercícios bem administrados);
- Tonificação da musculatura de forma gradual e "de
dentro para fora";
- Fortalecimento dos órgãos localizados no abdômen,
tornando -os mais eficientes e ativos;
- Postura correta e confortável;
- Equilíbrio e energização;
- Respiração correta;
- Auxílio em dietas de perda e ganho de peso;
Psicológicos/emocionais/sociais:
-
Resgatar da auto -estima;
- Aprender a se sensualizar sem se vulgarizar;
- Perceber os valores ligados ao ser humano e a natureza e
não à aparência;
- Despertar interesse por música, ritmos e cultura
orientais;
- Proporcionar o relaxamento mental/ diversão;
- Promover a boa convivência com amigos, colegas e
familiares;
- Incentivar a boa convivência com a natureza;
- Conscientizar sobre a responsabilidade social de cada
mulher (como educadoras da nova geração).

História
da Dança do Ventre
A
dança do ventre tem suas origens provavelmente
em toda a região mediterrânea e norte
africana. Podemos afirmar isso de acordo com o
grande número de evidências históricas
recolhidas em escavações e construções
antigas.
A
primeira figura que pode ser comparada à Dança
do ventre , é uma pintura rupestre datada de 6000
antes de cristo, encontrada numa caverna em
Tassili n'Ajjer , na Argélia ( Norte da África).
Era um culto estritamente feminino para a Deusa
Mãe.
Em
4000 antes de Cristo surgiram as figuras de
Naqada ( no egito) como vocês podem ver são
lindas e claras evidências da dança oriental ,
no sentido de adoração ao sol e culto à
fertilidade.
Por
Volta de 1400 antes de Cristo , várias
evidências se destacam, na Grécia, na Itália e
no Egito.
 
No
Egito danças rituais para afastar maus
espíritos com punhais e pandeiros,danças
funerais , danças religiosas e danças
artísticas , incluindo o quadro vivo eram as
mais destacadas.Nota-se que depois de certo
tempo , danças basicamente ritualísticas
passam por um processo de reformulação e
modulação para o propósito de apresentações
públicas.
A
maior evidência de danças orientais na Grécia
, Turquia e Itália é também de caráter
ritual, incluindo principalmente ritos cíclicos
, que representavam uma passagem de um estado à
outro na vida dos participantes.
Casamento,menarca (primeira menstruação),
parto e morte eram sem dúvida as ocasiões
preferidas para dançar, já que é destes
eventos que temos registros. Esta figura foi
encontrada num palácio na Pompéia (
Itália) em 50 antes de Cristo.
Mas
foi em 1300 depois de Cristo com a invasão
Árabe ao Egito, que esta dança se mesclou e
ganhou o caráter festivo de hoje , perdendo
parte de seu jeito sagrado e ritualístico e
ganhando a conotação alegre e espontânea.A
dança egípcia , a grega e a Italiana segundo
Irena Lexová ( autora de Ancient Egyptian
dances ) não continha movimentos bruscos e
retos, somente sendo fluida e suavemente
seqüencial.
(Como
o Tsiftetelli, pode se dizer), e a parte mais
solar, masculina e Brusca teria sido introduzida
na dança pelos árabes e seu folclore, por que
estes movimentos só apareciam em retratos das
danças Árabes e Etruscas.Compara-se ao
Tsiftetelli (ritmo da dança do vente Grega e
Turca ), por que este não é brusco como
o Baladi (Ritmo da dança do ventre árabe)
 
A
dança do ventre mudou de várias formas agora o
Raks el Sharki, Baladi ou dança do leste
era também parte da vida dos povos árabes ,
disseminado nas tribos de beduínos , foi
caminhando e evoluindo por todo o oriente e sul
da Europa.Dois tipos de bailarina foram sendo
separados,as Almeés e as Ghawazi .
As
Almées eram mulheres estudadas, poetizas,
cantoras, e artistas, dançavam pela arte e de
forma ritual. Já as Ghawazi, Ciganas em
português, espalhavam a dança no comércio e
viviam de dançar. Algumas Ghawazi se
prostituiam , mas apesar disso foram estas
as grandes antecessoras da dança cigana , das
danças Andaluzas , Sevillanas e do Flamenco
como andarilhas que eram..levaram a dança do
ventre à Andaluzia aonde esta se
estabeleceu e se diferenciou em 900 anos de
domínio Mouro e desde então.Assim que ambas as
personalidades foram responsáveis pela
disseminação e enriquecimento da dança do
ventre moderna.
As
bailarinas dançavam com instrumentos diversos ,
e estas danças impressionaram o exército de
Napoleão e artistas europeus que o retrataram
principalmente durante o periodo entre 1700 e
1900.Portanto decidiram levar bailarinas
egípcias(gawazi é claro) para uma grande
exposição em Paris .Nesta fase ganhamos
o nome 'Danse du ventre' e o estilo de roupa que
usamos atualmente com lantejoulas , paetês e
miçangas ( estilo Cabaret) Portanto a dança do
ventre moderna tem um quê de Parisienne.
O
que nos cabe , como shalomes modernas é
espalhar esta dança sem vulgarizar a
mesma e de forma a disseminar não só a beleza
plástica , mas também a beleza essencial da
dança, carregando a com amor em cada
momento...principalmente enquanto dançamos.
|